top of page
Buscar

Entre livros, encanto, território e autoria

7 de out.
5 min de leitura

EMEB Nelson Rodrigues - 05 de outubro de 2026, Franco da Rocha - SP Educação Infantil


Um relato sobre os encontros que as obras de Amara Hartmann proporcionaram às nossas crianças.



Este registro nasce do desejo de compartilhar com Amara Hartmann um pouco daquilo que talvez um livro, depois de publicado, nem sempre permita ao seu autor acompanhar: os caminhos que uma história percorre quando chega às mãos das crianças.


Nosso trabalho começou com uma intenção pedagógica: ampliar as experiências de oralidade, leitura e escrita já presentes em nossa unidade e aproximar as crianças da literatura produzida em seu próprio território. Queríamos que elas conhecessem uma autora regional, suas obras e as relações que suas histórias estabelecem com a cultura e com lugares que fazem parte de Franco da Rocha.


Mas, ao longo do percurso, percebemos que essa experiência alcançou uma dimensão ainda maior.


Apresentar uma escritora próxima, acessível e pertencente ao mesmo território tornou a literatura mais concreta para as crianças. A autora deixou de ser apenas um nome escrito na capa de um livro. Passou a ser alguém sobre quem elas queriam saber mais, alguém para quem poderiam fazer perguntas, escrever um convite e, posteriormente, encontrar pessoalmente.


As crianças conheceram as quatro obras de Amara e foram se envolvendo com cada uma delas. Ouviram as histórias, observaram atentamente as ilustrações, conversaram, fizeram perguntas, levantaram hipóteses, recontaram acontecimentos e registraram aquilo que mais as havia encantado por meio de desenhos e escritas espontâneas. Essas produções ganharam os espaços da escola, os lares das famílias e passaram a contar, também, a história do percurso vivido pelo grupo.


Com Maria e as Doze Flores, a literatura ultrapassou as páginas do livro e nos levou ao território. As crianças conheceram mais sobre o Complexo Juquery, conversaram sobre sua história e suas transformações e posteriormente puderam vivenciar esse espaço. No CIECEL, participaram de contação de histórias, conheceram a biblioteca, exploraram a área verde e outros ambientes. Aquilo que primeiro apareceu na literatura pôde ser relacionado a um lugar real, pertencente à cidade onde vivem e tem muitas historias. Foi bonito perceber que o livro passou a ser uma porta de entrada para conhecer a própria cidade.


Entretanto, talvez um dos movimentos mais significativos tenha acontecido quando as crianças começaram a compreender que, antes de existir um livro, existe alguém que imagina uma história, cria personagens, escolhe palavras, registra ideias e transforma tudo isso em uma obra. Nesse momento, algo mudou... Elas também quiseram criar! Começaram a imaginar personagens, acontecimentos e diferentes narrativas. Desenharam, buscaram apoio para a escrita e, em um movimento espontâneo, começaram a produzir seus próprios livros. O primeiro a chegar com uma produção foi um garotinho de 6 anos, Benjamin, trazendo um livro com uma história construída com começo, meio e fim. A iniciativa despertou o interesse das demais crianças e, pouco a pouco, outras produções começaram a surgir, envolvendo também as famílias, que se mostraram animadas em participar e apoiar esse processo. A literatura, que inicialmente chegou até elas como experiência de leitura, passou a provocar também autoria. Na Educação Infantil, esse movimento tem um significado muito especial. Não esperamos e nem temos intenção que as crianças escrevam convencionalmente para reconhecê-las como autoras. Suas falas, desenhos, hipóteses de escrita, perguntas, narrativas e diferentes formas de registro são valorizadas como maneiras legítimas de produzir e comunicar sentidos. Ao encontrar um motivo verdadeiro para escrever e alguém com quem compartilhar suas produções, a cultura escrita passa a fazer ainda mais sentido.


E foi justamente assim que surgiu outro momento importante: as crianças escreveram coletivamente um convite para Amara visitar nossa escola. Não se tratava de escrever apenas para realizar uma atividade. Havia um destinatário verdadeiro, uma intenção e uma expectativa: queriam encontrar a escritora cujos livros já faziam parte de suas experiências.

Para socializar tudo o que havia sido construído, organizamos um espaço de exposição com livros, desenhos,  escritas e produções das crianças. Criamos uma grande cabana de leitura e convidamos os pequenos a participarem fantasiados, tornando aquele encontro ainda mais próximo do universo da imaginação e das histórias. Nesse espaço, puderam observar as produções dos amigos e apresentar suas próprias histórias às demais crianças da escola. E então aconteceu aquilo que tornou o percurso ainda mais especial: a autora que primeiro chegou às crianças por meio dos livros entrou pelo portão da nossa escola.


A presença de Amara deu concretude a muitas das experiências construídas durante o percurso. Os olhinhos das crianças brilharam e os braços se estenderam, demonstrando uma proximidade e uma familiaridade com alguém que, até então, conheciam apenas por meio dos livros e das histórias. As crianças fizeram perguntas sobre as obras, os personagens, o processo de criação e algumas perguntas pessoais. Foram ouvidas com atenção e carinho e puderam conversar diretamente com a autora que, ao longo do percurso, já havia se tornado tão presente e significativa para elas.


Talvez uma das imagens que melhor represente todo esse processo seja justamente a das crianças mostrando seus próprios livros para a autora. Foi algo muito potente nesse encontro.


No início do percurso, eram crianças conhecendo os livros de uma escritora. No final, eram pequenos autores apresentando suas histórias para uma escritora. Esse processo reafirmou para nós a potência da literatura na Educação Infantil quando ela não é utilizada apenas como uma atividade isolada, mas como uma experiência capaz de gerar conversas, perguntas, investigações, desenhos, escritas, encontros, descobertas e novas histórias.

Também nos mostrou a importância de aproximar as crianças da produção cultural de seu território. Conhecer uma autora de Franco da Rocha permitiu que literatura, cultura e pertencimento se encontrassem. As crianças puderam perceber que histórias também podem nascer perto delas; que os lugares pelos quais passam podem habitar os livros; e, principalmente, que elas próprias têm histórias que merecem ser contadas.


Por isso, este registro é também uma forma de agradecer à autora Amara Hartmann. Obrigada por escrever histórias que chegaram à nossa escola, encontraram nossas crianças e despertaram tantos encantamentos. Aceitar nosso convite e vir até a escola, tornou ainda mais especial esse percurso.


Talvez você tenha chegado até elas primeiro pelas páginas de seus livros, mas aquilo que permaneceu foi muito maior: curiosidade, encantamento, desejo de escrever, vontade de criar e, principalmente, a descoberta de que uma criança também pode ser autora de suas próprias histórias. Suas obras fizeram parte de um percurso em que ler levou a conversar; conversar levou a investigar; investigar levou a conhecer o território; conhecer levou a criar; e criar levou nossas crianças a contar suas próprias histórias. É isso que desejamos guardar deste trabalho e compartilhar: quando a literatura encontra uma infância que tem espaço para imaginar, perguntar, criar e ser ouvida, um livro nunca termina na última página. Ele continua nas crianças.


Em nome de todo o encantamento que vivenciamos e de tudo o que seus livros proporcionaram às nossas crianças, deixo aqui um pedido muito especial à autora: continue sua jornada, escrevendo, criando e acreditando na potência de suas histórias e nos encantamentos que elas ainda poderão proporcionar a tantas outras crianças. Desejamos que cada vez mais crianças de Franco da Rocha e dos municípios vizinhos tenham a oportunidade de conhecer suas obras, conhecer e se encantar com suas histórias e viver experiências como as que nossas crianças viveram. Que seus livros possam estar cada vez mais presentes nas escolas e contribuir para a valorização da literatura, da leitura, da escrita, da cultura e da autoria na Educação Infantil.


Aqui, suas histórias encontraram pequenos leitores, despertaram curiosidades, provocaram descobertas e, de uma forma muito bonita, inspiraram novas histórias e novos autores.


Com carinho e gratidão, em nome de toda a equipe e das crianças da EMEB Nelson Rodrigues,


Professora Elaine ❤



 
 

© 2024 Romã Atômica · Todos os direitos reservados

bottom of page